Lennon*
Por Reginaldo Dias *
Como na canção de abertura do álbum Sergeant Peppers, o mais celebrado disco de rock de todos os tempos, podemos dizer: “faz vinte anos hoje”*. Faço referência ao dia 8 de dezembro de 1980, quando John Lennon foi estupidamente assassinado por um “fã”. As aspas não são exageradas. Nas palavras de Beto Guedes, beatlemaníaco de carteirinha, um canalha matou um rei em menos de um segundo. A diferença é que, enquanto na canção fazia vinte anos que o Sargento Pimenta ensinara a banda a tocar, hoje faz vinte anos que ele foi assassinado.
O assassinato de John Lennon foi, para as pessoas nascidas nas décadas de 50 e 60, pelo menos para as ligadas ao mundo do rock, um desses acontecimentos cuja lembrança remete a um lugar e a um momento precisos. Dito de outra forma, muita gente se lembra onde estava no momento em que soube da notícia. Eu estava na Construtora Ingá, onde trabalhava, quando alguém falou que um dos membros dos Bee Gees fora assassinado. Na época, os Bee Gees estavam no auge, por conta do sucesso da trilha do filme “Saturday Night Fever”. Logo em seguida, veio a correção e a confusão foi desfeita.
Ao correr para a minha casa, liguei a televisão e, de imediato, assisti à imagem de Lennon cantando “Stand by me”, documento da gravação do álbum solo “Rock and Roll”, em que fez homenagem aos seus ídolos. Muita gente já deve ter visto essa cena. Naqueles dias, foi repetida exaustivamente. Sempre que se faz alguma homenagem, essa imagem é incluída, tal é a sua beleza. Para mim, essa gravação é inseparável da instantânea emoção provocada pelo fato trágico. Naquela noite, assistindo ao último telejornal da Rede Globo, retive na memória outra imagem muito sensível. Além das cenas já divulgadas durante o dia, a reportagem mostrou a peregrinação que se fazia no edifício Dakota, última residência do ex-beatle. Na aparelhagem portátil de som de um “peregrino”, ouvia-se, lá no fundo, Nowhere Man. Nada poderia ser mais emblemático.
Em reportagens de jornais e revistas, compararam o sentimento das pessoas que faziam vigília no Dakota com os versos de Eleanor Rigby:
“Olhem para essas pessoas solitárias. A que lugar elas pertencem?”.
Os versos de Nowhere Man, tema universal das pessoas de nenhum lugar, soaram-me mais fortes, seja porque falavam, com mais contundência, da desterritorialização vivida pelos presentes, seja porque, sem qualquer programação, invadiram a cena.
Pensei que esse detalhe fora percebido apenas por mim, mas, alguns anos depois, conversando com meu amigo Newton Chagas Jr, hoje jornalista da Gazeta Mercantil, constatei que ele também se emocionara com essa cena e com a coincidência(?) da inserção de Nowhere Man como trilha sonora. Quantas pessoas teriam percebido esse detalhe?
De qualquer forma, devem existir aspectos que emocionaram outras pessoas e que eu não percebi. A verdade é que, diante de um fato tão marcante, cada um tem seu baú de lembranças pessoais.
Em um dos versos da canção Seargent Peppers, os Beatles cantavam: “esperamos que tenham gostado do show”.
Que dúvida! Pena que o Sargento Pimenta tenha sido assassinado. Devemos lamentar com Beto Guedes: “ó minha estrela amiga, por que você não fez a bala parar?”
Este texto foi publicado originariamente há 10 anos
*Reginaldo é historiador, escritor e docente da UEM
Como na canção de abertura do álbum Sergeant Peppers, o mais celebrado disco de rock de todos os tempos, podemos dizer: “faz vinte anos hoje”*. Faço referência ao dia 8 de dezembro de 1980, quando John Lennon foi estupidamente assassinado por um “fã”. As aspas não são exageradas. Nas palavras de Beto Guedes, beatlemaníaco de carteirinha, um canalha matou um rei em menos de um segundo. A diferença é que, enquanto na canção fazia vinte anos que o Sargento Pimenta ensinara a banda a tocar, hoje faz vinte anos que ele foi assassinado.
O assassinato de John Lennon foi, para as pessoas nascidas nas décadas de 50 e 60, pelo menos para as ligadas ao mundo do rock, um desses acontecimentos cuja lembrança remete a um lugar e a um momento precisos. Dito de outra forma, muita gente se lembra onde estava no momento em que soube da notícia. Eu estava na Construtora Ingá, onde trabalhava, quando alguém falou que um dos membros dos Bee Gees fora assassinado. Na época, os Bee Gees estavam no auge, por conta do sucesso da trilha do filme “Saturday Night Fever”. Logo em seguida, veio a correção e a confusão foi desfeita.
Ao correr para a minha casa, liguei a televisão e, de imediato, assisti à imagem de Lennon cantando “Stand by me”, documento da gravação do álbum solo “Rock and Roll”, em que fez homenagem aos seus ídolos. Muita gente já deve ter visto essa cena. Naqueles dias, foi repetida exaustivamente. Sempre que se faz alguma homenagem, essa imagem é incluída, tal é a sua beleza. Para mim, essa gravação é inseparável da instantânea emoção provocada pelo fato trágico. Naquela noite, assistindo ao último telejornal da Rede Globo, retive na memória outra imagem muito sensível. Além das cenas já divulgadas durante o dia, a reportagem mostrou a peregrinação que se fazia no edifício Dakota, última residência do ex-beatle. Na aparelhagem portátil de som de um “peregrino”, ouvia-se, lá no fundo, Nowhere Man. Nada poderia ser mais emblemático.
Em reportagens de jornais e revistas, compararam o sentimento das pessoas que faziam vigília no Dakota com os versos de Eleanor Rigby:
“Olhem para essas pessoas solitárias. A que lugar elas pertencem?”.
Os versos de Nowhere Man, tema universal das pessoas de nenhum lugar, soaram-me mais fortes, seja porque falavam, com mais contundência, da desterritorialização vivida pelos presentes, seja porque, sem qualquer programação, invadiram a cena.
Pensei que esse detalhe fora percebido apenas por mim, mas, alguns anos depois, conversando com meu amigo Newton Chagas Jr, hoje jornalista da Gazeta Mercantil, constatei que ele também se emocionara com essa cena e com a coincidência(?) da inserção de Nowhere Man como trilha sonora. Quantas pessoas teriam percebido esse detalhe?
De qualquer forma, devem existir aspectos que emocionaram outras pessoas e que eu não percebi. A verdade é que, diante de um fato tão marcante, cada um tem seu baú de lembranças pessoais.
Em um dos versos da canção Seargent Peppers, os Beatles cantavam: “esperamos que tenham gostado do show”.
Que dúvida! Pena que o Sargento Pimenta tenha sido assassinado. Devemos lamentar com Beto Guedes: “ó minha estrela amiga, por que você não fez a bala parar?”
Este texto foi publicado originariamente há 10 anos
*Reginaldo é historiador, escritor e docente da UEM




1 comentários:
Muito bonito o texto..parabéns!
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