Faltaram asas ao seu retrato
Este texto lindo é do artista plástico Elifas Andreato, paranaense de Rolândia e um dos maiores talentos do Brasil.
"Do nome não me lembro, mas do corpo não há como esquecer. Era miúdo, não tinha braços e era corcunda. A idade parecia inferior à dos outros meninos que frequentavam o curso de desenho que Ismael dos Santos oferecia gratuitamente a garotos pobres num galpão nos fundos da igreja da Vila Ipojuca, em São Paulo.
Lembro-me da noite em que Ismael nos apresentou o novo aluno. Sob o olhar espantado de todos, o menino sentou diante de uma prancheta colocada no chão e tirou do bolso da camisa, com os dedos dos pés, suas ferramentas de trabalho. Apontou o lápis com uma gilete e riscou um corpo feminino perfeito sobre o papel. Eu só tinha olhos para os movimentos seguros e precisos de seus pés de longos dedos. Não consegui traçar uma única linha naquela noite.
Depois de alguns meses desenhando a seu lado, soube que ele tinha sido abandonado ainda bebê e criado em orfanatos como uma aberração. Mas com os pés era capaz de criar imagens lindas, de uma natureza perfeita, de um mundo sem defeitos.
Naquele ano, Ismael decidiu promover um concurso entre os alunos, que teriam os trabalhos julgados por especialistas. Ganhei a competição. Quando deixamos o galpão-escola, embarcamos juntos no ônibus para a Lapa – era admirável como ele galgava a escada, apoiando-se na porta do ônibus; depois, sentado, tirava os sapatos para sacar com o pé o dinheiro da passagem guardado no bolso da camisa.
Durante a viagem, disse a ele que, se os jurados soubessem que ele desenhava com os pés, seria o vencedor. Irritado, ele respondeu: “Não importa como são feitos os desenhos, com as mãos ou com os pés. O que importa é o que sente quem faz”. E nada mais disse.
Já na Lapa, de onde tomaríamos outras conduções a caminho de casa, tomei coragem e mostrei o trabalho com o qual havia vencido o concurso. Era um retrato dele. Sem defeitos. “É assim que você me vê?”, ele perguntou. Eu disse que sim, e me dirigi ao ônibus que me levaria à Vila Anastácio, de onde, pela janela, assisti a seu gesto de agradecimento.
Do retrato, só me arrependo de um deslize: esqueci de acrescentar-lhe asas."



1 comentários:
Realmente um belo texto. Ninguem é melhor ou pior por sua necessidade especial, seja ela física, mental ou intelectual. Tudo isso é superável. A única deficiencia que não tem cura é a de caráter, essa realmente é uma deficiencia gravíssima.
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