Aurélio, o "pai" do dicionário
O Jornal, de Alagoas, fez uma linda matéria sobre Aurélio Buarque de Holanda, que era alagoano, embora poucas pessoas saibam disso. Aurélio não tem parentesco próximo com o cantor e compositor Chico Buarque, ele era apenas um primo distante de seu pai o historiador, escritor e jornalista, Sérgio Buarque de Holanda.
"Um mestre em constante busca das palavras com a destreza de um sábio. Com papeis e canetas nos bolsos e com a leveza de quem “pega borboletas no ar”, capturava-as uma a uma; guardava-as no peito e nos pensamentos; definia-as com a rapidez de uma “bota de sete-léguas” e, por elas e com elas, fazia longas, incansáveis e intermináveis viagens pelo mundo literário. Alagoano ilustre. A maior referência na Língua Portuguesa e “pai” do dicionário que se popularizou no mundo inteiro: Aurélio Buarque de Holanda Ferreira.
Sim, alagoano, embora poucos saibam. Uma excelência nas letras cujo primeiro abrir de olhos foi num simplório município do litoral norte de Alagoas: a pequenina e pacata Passo do Camaragibe, quando as suas terras - banhadas pelo rio Camaragibe - já haviam adormecido sob o luar e o relógio marcava exatas vinte e três horas e trinta minutos do dia 3 de maio de 1910, numa humilde casa de porta e janela da Rua Treze de Maio.
Foi esse mundo marcado pela pobreza e pelas escassas ou quase total ausência de oportunidades da sua terra natal que se descortinou para mais esse varão, de cabelos loiros e cacheados, com traços holandeses, da família Buarque Ferreira. Um cenário que pouco ou nada tinha a ver com o grandioso, encantador e promissor futuro que iria marcar a vida do dicionarista. Talvez, uma pontinha do destino luzente já começasse a aparecer a partir da escolha do seu sugestivo nome pelos seus pais, o comerciante Manoel Hermelindo Ferreira e a dona-de-casa Maria Buarque Cavalcante Ferreira: Aurélio; nome áureo; iluminado.
A presença do “sábio das letras” no solo passo camaragibense foi restrita a poucos meses, deixando lá fincadas apenas as raízes da sua origem, que teria orgulho de carregar ao longo dos seus 79 anos de vida. Meses após o seu nascimento, o seu destino seria na também simples e interiorana Porto de Pedras, mais uma paisagem paradisíaca do litoral norte de Alagoas, celeiro das mais tenras lembranças da sua infância, do seu pai, dos mais profundos sonhos e contemplações do mar de águas azul-esverdeadas, plácidas e límpidas que margeia a cidade e do bucólico luar, perfeitos para longas divagações da sua mente sonhadora de menino. O ir e vir das ondas do oceano de Porto de Pedras lhe causavam admiração, davam-lhe a sensação de imensidão, de infinito, de um horizonte que permeou a sua vida anos depois. Saudosas e profundas reminiscências que foram relembradas, recontadas e eternizadas em muitos dos seus contos. “Aurélio era uma criança que tinha verdadeira fixação pelo mar. Olhava para trás e via a pobreza que o assolava e para a frente a imensidão do horizonte do mar”, disse o sociólogo e pesquisador da história de Alagoas Marcos Vasconcelos Filho, autor do livro Marulheiro - Viagem Através de Aurélio Buarque de Holanda, vencedor do Prêmio Nacional Aurélio Buarque: o mestre da cultura e das palavras, da Academia Alagoana de Letras.
TRAVESSURAS - O sonhador e contemplativo menino Aurélio era traquino e travesso, com a sua mente dividida entre Dois Mundos - a sua primeira obra ficional: um real, de criança peralta e traquina, vivenciando as constantes dificuldades financeiras do seu pai, com negócios sempre oscilantes; e o seu próprio, marcado pela tristeza que a imensidão do mar lhe causava e pela inquietude do típico sossego da cidade interiorana em que vivia, em contraste com o seu temperamento extrovertido.
Cristão, batizado logo após o nascimento, Aurélio era autor de muitas travessuras, sendo, diversas vezes, considerado por seu pai como sonso e fingido. “Ele sabe fazer das suas”. “Dá unhada e esconde as unhas”. “Com essa carinha de tolo, quem quiser que vá atrás da tolice dele. É um sabidão”, dizia o seu pai quando se deparava com mais uma de suas traquinagens. “Menino”!, chamava-o à atenção o seu Manoel Hermelindo Buarque Ferreira, segurando-lhe o queixo e fitando-o os olhos com uma autoridade na voz e no semblante que o fazia recuar. Como toda criança peralta tinha os seus segredos, as suas tramóias de criança, como pular a cerca do quintal do seu vizinho para tirar bananas do pé, fumar escondido, armar arapucas no pé de oiteiro para pegar passarinhos e várias outras molecagens.
Uma inquietude que não cessou nem quando foi apresentado às primeiras letras pela sua mãe, que o ensinou a ler aos 6 anos de idade na sua casa, na Rua do Fogo, onde foram acesas as primeiras chamas de um fugor ardente, de uma energia constante e prazerosa na sua afinidade com as letras, as palavras, as frases, os vocábulos e os verbetes. O fato de ser filho de um comerciante em constantes dificuldades financeiras não ofuscou a importância da educação e dos estudos na trajetória escolar de Aurélio, marcada por muitos mestres. Um deles, a rígida dona Paulina, seria eternizada em suas lembranças de estudante e retratada anos depois no conto A Primeira Confissão."



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