quinta-feira, 8 de setembro de 2011

A droga lícita

Foto: revista Trip
Por Célia Musilli *

Tenho visto imagens de Sócrates na imprensa, com os olhos injetados e a pele amarelada de quem sofre de cirrose. Muito triste. Sócrates foi meu ídolo na infância, quando o via correndo pelos campos do mundo, até chegar à glória na Copa de 82. Décadas depois, parece que o Dr. perdeu a sabedoria, embarcou na ilusão de ser feliz “tomando todas” e deu neste espectro de homem que provoca piedade.
Não sou dada a discursos moralistas, prefiro confiar na escolha de quem sabe o que deve comer, beber e fazer da sua própria vida. Mas não sou indiferente à hipocrisia da indústria do alcoolismo, que dá muito lucro. Não sou indiferente à hipocrisia das propagandas que mostram bebedores vendendo saúde, rodeados de mulheres lindas como se o álcool fosse motivação apenas de prazer e alegria. Na verdade, muitos estão longe de poder protagonizar tanta felicidade. Homens que bebem demais nem sequer conseguem transar uma mulher daquelas, perdem a virilidade na cama e na vida, além de encenar episódios bizarros na condição de bêbados, gente comum que não aparece na TV, mas tropeça na esquina.
Não falo olhando o problema de fora, nem tentando demonstrar que certas coisas só acontecem na família dos outros. Tive um avô que acabou na cadeia depois de praticar um crime completamente alcoolizado. Até por isso, meu pai passou a detestar bebida, puro trauma. Mas, na contrapartida, foi um dos homens mais íntegros que conheci na vida e foi também meu ídolo.
O problema é o quanto se investe de grana na indústria do alcoolismo e das drogas lícitas. Na proporção, álcool mata bem mais do que a cocaína, o que não significa que a gente deva trocar o copo por uma carreira, as duas coisas matam. Mas pelo menos, pó, maconha e esctasy não são vendidos por aí como “fórmulas da felicidade”. Nunca vi propaganda incitando alguém a dar uma cheiradinha, nem um “tapa” no cigarro que parece objeto dos contos de fada em tempo de crack. Por sinal, a “propaganda” do crack é bem triste, uma legião de mortos-vivos que nem sabemos a que mundos pertencem, sinistros e feios na sua infelicidade.
Já o álcool é objeto de culto. Aparece na mídia como estimulante de situações felizes, onde não há gente transtornada, apenas embalada na felicidade nacional que combina o pagode e a dança das gostosas com uma cervejinha. Na TV, ninguém cai, ninguém bate o carro, não agride a mulher nem vomita. Álcool é pura felicidade, o Nirvana no copo, embora ao fim das propagandas, aquela frase hipócrita do Ministério da Saúde apareça para lavar as consciências: “Se beber, não dirija.” Eles só se esquecem de lembrar que há bêbados que já perderam a direção de suas vidas.
No mais, resta pedir aos deuses que se não podem salvar o Sócrates, pelo menos o levem ao Olimpo sem muita dor. A nação do samba , do futebol e da cerveja só tem a agradecer ao ídolo não só pelos gols, mas também pelo exemplo triste de ser um craque que tropeçou no talento de viver, porque não há mais parceiro de jogo, mulher bonita, médico ou massagista que o possam levantar.

* Célia é jornalista, poeta e cronista. escreve aos domingos na Folha de Londrina , mestranda em Literatura na Unicamp.autora dos livros "Londrina Puxa o Fio da Memória" , em parceria com Maria Angélica Abramo; "Sensível Desafio" (poesia) e "Todas as Mulheres em Mim" (prosa poética). Escreve no blog www.sensivelldesafio.zip.br

1 comentários:

Anônimo,  8 de setembro de 2011 10:59  

Sábias palavras,Célia.
Um dos nossos ídolos do futebol,formado em medicina e com uma vida,ainda jovem,apenas 57 anos,dedicada a hábitos pouco saudáveis.
Ainda há tempo pra vetar campanhas que enchem os olhos dos jovens deslumbrados, para os vícios.
Triste exemplo mesmo dos nossos craques Sócrates e Casagrande no talento de viver.

Bjka!!!

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